AUTORA: LARISSA PIRES RIBEIRO

O texto a seguir foi apresentado, em 2017, à prof.ª Letícia Goulart Barreto docente da disciplina de Psicanálise na Faculdade de Administração, Ciências, Educação e Letras.

           O pai da psicanálise, Sigismund Schlomo Freud, conhecido como Sigmund Freud, nasceu em 1856, na cidade de Freiberga, na Alemanha. Filho de Jacob Freud e Amalie Nathanson, foi o primogênito de sete irmãos. Iniciou os estudos em medicina aos 17 anos, na Universidade de Viena, concluindo o curso no ano de 1881 e resolvendo especializar-se em neurologia. Por muitos anos, trabalhou em uma clínica neurológica para crianças e mais tarde conheceu Breuer e seu método hipnótico para curar sintomas graves de histeria – o que constituiu o ponto de partida para a criação da psicanálise, no qual, após seu rompimento com a hipnose em detrimento do método de livre associação, Freud mergulhou em seus estudos sobre o inconsciente. Apesar dos obstáculos enfrentados durante sua carreira, Freud seguiu desenvolvendo a teoria psicanalítica, a qual, 78 anos após sua morte, permanece servindo de base para as psicoterapias profundas, que trabalham o inconsciente. Neste texto, abordaremos um dos conceitos fundamentais postulados por Freud em 1915, no artigo “O instinto e suas vicissitudes”: o conceito de pulsão e os seus destinos – que seria a tradução mais correta do título alemão “Trieb und triebschicksale” – passando por suas definições, características até, finalmente, chegarmos a seus destinos.

Começaremos diferenciando a pulsão de instinto – que é a tradução que tem se dado à palavra alemã “Trieb”, utilizada por Freud – e definindo-a. Podemos dizer, de início, que a pulsão se diferencia do instinto por sua plasticidade, ela não implica em um comportamento “pré-formado”, nem possui um objeto específico.

Freud (1915) nos traz algumas definições da pulsão: a) do ponto de vista fisiológico, comparada ao estímulo, podemos dizer que ela seria um estímulo para o psíquico – é importante nos atentarmos para não igualar pulsão e estímulo psíquico, focando no “para” que é colocado entre “estímulo” e “o psíquico”, é necessário que saibamos que existem outros estímulos para o psíquico, além dos pulsionais; diferente do estímulo, que age como um impulso único que pode ser descarregado com a fuga motora da fonte de estímulo, a pulsão, por sua vez, nunca age como uma força motora momentânea, mas como uma força constante, uma pressão contínua – de nada serve fugir dela. Temos aqui o estímulo pulsional como “carência” e o que suprimirá essa carência é a satisfação, que só será atingida através de uma mudança adequada da fonte interna do estímulo; b) um conceito-limite entre o mental e o somático, o representante psíquico dos estímulos que se originam dentro do corpo – no organismo – e alcança a mente, c) o representante psíquico das forças orgânicas (somáticas), que fluem continuamente e d) mesmo no inconsciente, é representada por uma ideia, ou seja, quando falamos de impulso pulsional inconsciente ou de um impulso pulsional reprimido, estamos nos referindo apenas a um impulso pulsional, cujo representante ideacional, carregado de afeto, é inconsciente.

Para facilitarmos a compreensão das definições supracitadas, faz-se necessário que destaquemos as características da pulsão: sua pressão (drang), sua finalidade (ziel), seu objeto (objekt) e sua fonte (quelle).

Freud (1915) diz que a pressão que faz a pulsão é a própria essência da pulsão, é seu aspecto motor, a quantidade de força ou exigência de trabalho que a pulsão faz com o aparelho psíquico. A finalidade da pulsão será sempre a satisfação (parcial) – e só poderá ser obtida através da eliminação, também parcial, do estímulo – como bem aponta Garcia-Roza (2008), não há cancelamento do estímulo, caso contrário, a pulsão não seria uma força constante e sim uma força de choque momentânea. A finalidade da pulsão só será atingida através de um objeto, que é o que há de mais variável em um estímulo pulsional. Garcia-Roza (2008) também explica que a pulsão pede um objeto, mas que ela não implica um objeto específico, porém, mesmo que inespecífico, este objeto precisa estar ligado à pulsão pela sua “peculiar aptidão” para que haja satisfação. Enfim, por fonte, cujo estímulo é representado no psíquico pela pulsão, entendemos um processo somático, que ocorre em um órgão ou parte do corpo.

Na sequência, Freud (1915) traz a distinção das pulsões em dois grupos primordiais: pulsões do eu (ou de autopreservação) e pulsões sexuais, que, mais tarde, vale ressaltar, seriam substituídas por pulsões de vida e pulsões de morte.

Como Garcia-Roza (2008) elucida, é necessário que saibamos que, mesmo que o termo pulsão tenha sido empregado pura e simplesmente até aqui, Freud se refere, a todo tempo, à pulsão sexual. Assim como Freud no artigo em questão, não nos aprofundaremos na explicação sobre a divergência entre pulsões do eu (ou de autopreservação) e, nas até então tratadas, pulsões sexuais. Seguiremos apontando a investigação sobre os destinos das pulsões nos restringindo às pulsões sexuais. Assim, a fim de concluirmos essa parte, antes de, finalmente, entrarmos na questão sobre os vários destinos que passam as pulsões, deixaremos apenas um trecho que elucida introdutoriamente a questão das pulsões do eu (ou de autopreservação):

Os termos pulsões de autoconservação (Selbsterhaltungstriebe) e pulsões do eu (Ichtriebe) são comumente empregados como sinônimos, apesar de designarem processos que não se superpõem necessariamente. O termo pulsões de autoconservação designa as necessidades ligadas às funções corporais cujo objetivo é a conservação da vida do indivíduo; são as pulsões que, por exemplo, impelem esse indivíduo a procurar alimento e a se defender, portanto, a manter-se vivo. O termo pulsões do eu, por sua vez, acentua não tanto a função mas o objeto. Por se supor que o eu esteja a serviço da conservação do indivíduo, faz-se corresponder as pulsões de autoconservação às pulsões do eu, empregando-se os termos como sinônimos. Mas, não apenas não é verdadeiro que o eu esteja a serviço da conservação individual como, além disso, o eu é visto por Freud como um dos objetos privilegiados de investimento libidinal. (GARCIA-ROZA, 2008, p. 100)

 

Freud (1915),aponta quatro destinos pulsionais:

  1. Reversão a seu oposto.
  2. Retorno em direção ao próprio eu (self) do indivíduo.
  3. Repressão.
  4. Sublimação.

Como, no artigo que norteia este ensaio, o autor não discute os dois últimos destinos, os conceituaremos brevemente, já de início, para, posteriormente, prosseguirmos com os dos dois primeiros.

Sabemos da importância da repressão (recalque), do tempo dedicado e das dificuldades encontradas por Freud para definir esse terceiro destino pulsional, considerado a “pedra angular em que assenta todo o edifício da psicanálise” – por fazer parte da fundação do inconsciente (recalque originário) –, portanto, tomando o devido cuidado para não cairmos em um reducionismo, em nossa breve descrição, levantaremos apenas alguns pontos dados por Freud (1915) no artigo dedicado à repressão.

Podemos entender a repressão (recalque) a partir da noção de que o caminho seguido pela pulsão em direção à satisfação pode gerar mais desprazer do que prazer, sabendo disso, Freud (1915) afirma que “a essência da repressão consiste em simplesmente afastar determinada coisa do consciente, mantendo-a à distância” a fim de evitar o desprazer. Em outras palavras, esse destino pulsional torna a pulsão – incompatível com as exigências do ego – inoperante, levando e mantendo no inconsciente o que é intolerável para a consciência.

A sublimação, por sua vez, é um o processo pelo qual a pulsão sexual é direcionada para atividades socialmente aceitas (mudança de objeto), como, por exemplo, uma pesquisa científica ou uma obra de arte. É o afastamento do objeto sexual e o investimento em realizações sociais/culturais.

As realizações culturais e artísticas, as relações de ternura entre pais e filhos, os sentimentos de amizade e os laços sentimentais do casal são, todos eles, expressões sociais das pulsões sexuais desviadas de seu objetivo virtual. A amizade, por exemplo, é alimentada por uma pulsão sexual desviada em direção a um objetivo social. (NASIO, 1999, p. 55)

 

Como Garcia-Roza (2008) assinala, isso não quer dizer que a pulsão esteja completamente livre, ela está relativamente livre da repressão (recalque), porém, ainda existe a censura que impõe o desvio do caráter sexual. “É como se não houvesse recalcamento da pulsão mas surgisse em seu lugar um recalcamento do objeto sexual para dar lugar ao objeto sublimado.”

 

O primeiro destino pulsional citado, a reversão ao seu oposto, é a transformação de atividade em passividade, ela pode acontecer de duas formas: na mudança de finalidade ou na mudança de conteúdo. A fim de elucidar a situação, Freud traz o par antagônico sadismo-masoquismo, onde representa o processo do seguinte modo:

(a) O sadismo consiste no exercício de violência ou poder sobre uma outra pessoa como objeto. (b) Esse objeto é abandonado e substituído pelo eu do indivíduo. Com o retorno em direção ao eu, efetua-se também a mudança de uma finalidade instintual ativa para uma passiva. (c) Uma pessoa estranha é mais uma vez procurada como objeto; essa pessoa, em conseqüência da alteração que ocorreu na finalidade instintual, tem de assumir o papel do sujeito. (FREUD, 1915).

Como fica claro na etapa b, o retorno ao próprio eu (segundo destino pulsional apontado) é o abandono de um objeto e a substituição deste pelo próprio eu, ou seja, o masoquismo é, na verdade, o sadismo que retorna em direção ao eu do sujeito.

A investigação de um outro par de contrários – a escopofilia e o exibicionismo – pode ser representada da mesma forma, diferenciando-se apenas no fato de que a pulsão de observar é, no início, autoerótica; ela possui um objeto, mas o encontra em seu próprio corpo, sendo, mais tarde, conduzida (através de comparação) a trocar este objeto por uma parte semelhante do corpo alheio – a etapa a, sendo, neste caso, “o olhar como uma atividade dirigida para um objeto estranho” (FREUD, 1915).

O terceiro par de contrários mencionado por Freud é o amor-ódio, que difere dos outros pares utilizados como exemplo e é o único no qual se verifica a reversão ao seu oposto pela mudança de conteúdo. O amar não tem apenas um, mas três opostos: amar-odiar, amar-ser amado, amar e odiar-indiferença. Essas três formas de oposição ao amor remetem às três polaridades que regem nossa vida mental, as antíteses: sujeito (ego)-objeto (mundo externo), prazer-desprazer e ativo-passivo, que dizem respeito ao nível do real, do econômico e do biológico, respectivamente. (FREUD, 1915; GARCIA-ROZA, 2008).

 

Considerações finais

 

Como vimos aqui, é imprescindível que a investigação desses quatro destinos pulsionais, ou seja, do reverso ao seu oposto, do retorno em direção ao próprio eu, da repressão (recalque) e da sublimação, seja feita através da análise precedente da pressão, da finalidade, do objeto e da fonte da pulsão, para que se consiga visualizar e entender como se dá o processo de cada destino.

É muito difícil, assim como em qualquer ciência, compreender a psicanálise através do mero contato com definições simplistas dos conceitos psicanalíticos. Da mesma forma que para entender os destinos pulsionais se fez necessário definir e caracterizar a pulsão, para entender Freud é indispensável a leitura e a busca de meios para assimilar o que ele realmente fez e disse, bem como atualizar-se quanto à teoria psicanalítica.

 

Referências

 

FREUD, S. Repressão, 1915. Disponível em: <http://www.freudonline.com.br/livros/volume-14/vol-xiv-4-repressao-1915/>. Último acesso em 21 de abril de 2017.

FREUD, S. O instinto e suas vicissitudes, 1915. Disponível em: <http://www.freudonline.com.br/livros/volume-14/vol-xiv-3-os-instintos-e-suas-vicissitudes-1915/> Último acesso em 21 de abril de 2017.

GARCIA-ROZA, L. A. Introdução à metapsicologia freudiana. 7. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

NASIO, J. D. O prazer de ler Freud. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.

AUTORAS: LARISSA PIRES RIBEIRO e TÂNIA DE MELLO CRUZ PINTO

O texto a seguir foi apresentado, em 2017, à profª. Letícia Barreto docente da disciplina de Psicanálise na Faculdade de Administração, Ciências, Educação e Letras.

 

  1. INTRODUÇÃO

 

O mal-estar na civilização foi escrito em 1929 pelo neurologista, pai da psicanálise, Sigmund Freud. O artigo trata das questões que dizem respeito à produção do mal-estar pela civilização, que exige que os indivíduos façam sacrifícios em troca de proteção contra a natureza. Desde a publicação do texto, houveram muitos avanços tecnológicos que deram ao homem cada vez mais o poder de controlá-la, assim como houve um aumento considerável na liberdade sexual. Quais seriam, então, as causas do mal-estar na atualidade, de acordo com o que foi postulado por Freud? Não pretendemos, neste artigo, analisar o texto em questão, muito menos resumi-lo, apenas o utilizaremos como base de nossas hipóteses acerca do sofrimento e sintomas na cultura provenientes do discurso meritocrático da ideologia neoliberal no capitalismo avançado do século XXI no Brasil, considerando as exigências da civilização, o sentimento de culpa e a batalha entre as pulsões de vida e de morte.

 

  1. O MAL-ESTAR NO CAPITALISMO AVANÇADO

 

Dada a relação dialética entre o universo psíquico e o universo social, faz-se necessário definir a ideologia fundamental do sistema no qual estamos inseridos, a ideologia (neo)liberal:

 

Como oposição ao feudalismo, a perspectiva liberal tem como um de seus elementos centrais a valorização do indivíduo: o individualismo. Cada indivíduo é um ser moral que possui direitos derivados de sua natureza humana. Somos indivíduos e somos iguais, fraternos e livres, com direito à propriedade, à segurança, à liberdade e à igualdade. (…) Por que surgiam essas ideias liberais? Porque o capitalismo precisava delas; precisava pensar o mundo em movimento, para explorar a natureza em busca de matérias-primas e para dessacralizá-la. O capitalismo precisava do indivíduo como ser produtivo e consumidor. (…) Diante das enormes desigualdades sociais no mundo moderno, o liberalismo produziu sua própria defesa, construindo a noção de diferenças individuais decorrentes do aproveitamento diferenciado que cada um faz das condições que a sociedade “igualitariamente” lhe oferece. (BOCK, 2001)

 

Gostaríamos de evidenciar, de início, a batalha entre Eros (pulsões de vida) e Tânatos (pulsões de morte), na qual, segundo Freud (1929), o propósito de Eros “é combinar indivíduos humanos isolados, depois famílias e, depois ainda, raças, povos e nações numa única grande unidade, a unidade da humanidade”, enquanto Tânatos tem o intuito de desunir os indivíduos. A questão que surge, em nosso artigo, é a de que – visando o avanço capitalista e sua ideologia fundamental, o neoliberalismo (que, como acabamos de ver, tem como característica essencial o individualismo) e, ainda, o fato de que este sistema é marcado pelo consumismo (no qual o sentimento de falta se atualiza e se faz presente, a todo o momento, através das propagandas de produtos que supostamente trazem a felicidade que os indivíduos procuram) – a batalha entre as pulsões de vida e as pulsões de morte tornou-se ainda mais intensa.

 

Não é surpresa que uma ideologia que contribui com a marginalização de pessoas, que dissemina na cultura a noção de que as desigualdades sociais são culpa das classes dominadas e, ao mesmo tempo, impõe aos indivíduos que, de alguma forma, comercializem ou consumam o que é bombardeado na mídia, gere, não somente, profundo mal-estar, como também é neste fato que encontramos as causas no aumento do crime e da violência. Analisemos a favela, na qual o primeiro produto comercializável que chega aos adolescentes, que enfrentam as mais diversas dificuldades de se inserir no mercado de trabalho, são as substâncias tóxicas, uma das três medidas paliativas de lidar com o sofrimento, pontuadas por Freud (1929). Entendemos que a droga, ainda neste sentido, não tem o intuito apenas de insensibilizar o indivíduo ao sofrimento, como também é o meio pelo qual o indivíduo marginalizado encontra para dar conta da imposição do comprar e/ou vender. É através da droga que ele se insere na dinâmica do sistema.

 

Acrescendo aos fatos supracitados o que Freud (1929) pontua a respeito das exigências da civilização – a beleza, a limpeza e a ordem – e do narcisismo das pequenas diferenças, a soma tem como um dos produtos a realidade do sistema penitenciário brasileiro. Antes de discorrermos sobre, vale explicar o “narcisismo das pequenas diferenças”:

 

(…) não é fácil aos homens abandonar a satisfação dessa inclinação para a agressão. Sem ela, eles não se sentem confortáveis. A vantagem que um grupo cultural, comparativamente pequeno, oferece, concedendo a esse instinto um escoadouro sob a forma de hostilidade contra intrusos, não é nada desprezível. É sempre possível unir um considerável número de pessoas no amor, enquanto sobrarem outras pessoas para receberem as manifestações de sua agressividade. (…) Dei a esse fenômeno o nome de “narcisismo das pequenas diferenças”. (FREUD, 1929)

 

Dados de 2015 do Conselho Nacional do Ministério Público mostram que as cadeias públicas brasileiras têm 70% de presos a mais que a capacidade de lotação, cujo perfil socioeconômico dos detentos é, segundo o Departamento Nacional Penitenciário (2014), em sua grande maioria, de jovens, negros e de baixa escolaridade.

 

Dentro do sistema capitalista, a agressividade é redirecionada para os indivíduos que constituem a parcela que, devido aos inúmeros problemas sociais, não dão conta da demanda e das exigências deste sistema. A agressividade contra os mais desfavorecidos é vista não apenas nos discursos midiáticos, nos diálogos mais cotidianos e na realidade do sistema penitenciário, como também na ausência de políticas públicas que reduzam as desigualdades. O abandono e a negligência do governo, neste cenário, também é a causa da ausência de ordem, beleza e limpeza nas favelas, e a solução que tem se dado ao problema é a adição de “vigilantes”, como as UPPs, o BOPE e o Exército, que são inseridos nas favelas para “dar conta” do “inconveniente”.

 

Ainda a respeito dos grupos em desvantagens sociais, das exigências da civilização e do narcisismo das pequenas diferenças, gostaríamos de acrescentar um caso recente: a higienista e violenta ação na cracolândia no dia 21 de maio, que tratou o uso de álcool e drogas – um problema de saúde pública – como uma questão de polícia, que, como pontuou o Conselho Federal de Psicologia (2017),

 

desmontou, arbitrariamente, uma política pública destinada a usuárias (os) de drogas, fundamentada nos princípios da atenção integral à saúde, do cuidado em liberdade, da redução de danos e voltada à ampliação da autonomia do sujeito, por meio da redução gradual do uso de substâncias e da promoção do acesso à assistência social, ao atendimento em saúde, e a oportunidades de emprego e moradia. (…) A “São Paulo Cidade Linda” do prefeito João Dória é a cidade sem políticas públicas que atendam de maneira eficiente as demandas da população em situação de rua, entre elas, usuárias (os) de drogas. É a cidade na qual não há espaços para dialogar com as diferenças que São Paulo apresenta e que merecem não tratores, mas sim estratégias de cuidado que reconheçam todas as questões históricas e sociais que antecedem e resultam na vulnerabilidade de parcelas da população.

 

 

Para verificarmos o mal-estar na sociedade capitalista, não é necessário focar apenas nas periferias ou nos indivíduos em situação de rua, o desespero se faz presente também nas classes mais altas. No ano passado, um homem assassinou sua família e, logo em seguida, suicidou-se, deixando uma carta onde justificava o ato pelo desespero que se encontrava devido a uma crise econômica. No mesmo ano, o dono da empresa Luizzi, suicidou-se uma semana depois de demitir 223 funcionários devido à queda nas vendas. Não queremos reduzir o suicídio, uma questão de saúde pública, a estes casos, pretendemos, apenas, apontar para um dos estressores. Estes não são os únicos fatos que apontam a relação entre as dificuldades financeiras e o suicídio. Uma pesquisa financiada pela Universidade de Zurique, na Suíça, revelou que o desemprego é responsável por um a cada cinco suicídios no mundo, representando 20% do total de 233 mil mortes contabilizadas pela Organização Mundial de Saúde.

 

 

  1. CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Assim como Freud coloca acerca de sua época, também não acreditamos que, no século XXI, a agressividade tenha como causa a propriedade privada, mas também consideramos imprescindível e inevitável falar, além do que é inerente à natureza humana, dos estigmas e mazelas que surgiram com o avanço do capitalismo, ou seja, do mal-estar na cultura oriundo deste sistema.

 

 

 

  1. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

 

BOCK, A. M. B. A PSICOLOGIA SÓCIO-HISTÓRICA: uma perspectiva crítica em psicologia, 2001. Disponível em: <https://blogpsicologiablog.files.wordpress.com/2011/08/a-psicologia-socio-historica-uma-perspectiva-crc3adtica-em-psicologia-bock-2001.pdf> Último acesso em 03 de junho de 2017.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Prefeitura de SP afronta direitos humanos e luta antimanicomial, 2017. Disponível em:  <http://site.cfp.org.br/prefeitura-de-sao-paulo-afronta-direitos-humanos-e-luta-antimanicomial/> Último acesso em 03 de junho de 2016.

 

CONSELHO NACIONAL DO MINISTÉRIO PÚBLICO. CNMP lança relatório com dados sobre o sistema prisional brasileiro, 2016. <http://www.cnmp.mp.br/portal/todas-as-noticias/9946-cnmp-lanca-relatorio-com-dados-sobre-o-sistema-prisional-brasileiro> Último acesso em 03 de junho de 2017.

 

DANIELE, A. Desemprego causa 1 em cada 5 suicídios no mundo. Exame, 2015. Disponível em: <http://exame.abril.com.br/carreira/desemprego-causa-1-em-cada-5-suicidios-no-mundo-diz-estudo/> Último acesso em 03 de junho de 2017.

 

 

DEPARTAMENTO PENITENCIÁRIO NACIONAL. Levantamento Nacional de informações penitenciárias, 2014. Disponível em: <http://www.justica.gov.br/seus-direitos/politica-penal/infopen_dez14.pdf/@@download/file> Último acesso em 03 de junho de 2017.

 

G1. Dono de empresa que demitiu 223 funcionários é encontrado morto, 2016. Disponível em: <http://g1.globo.com/sp/sao-carlos-regiao/noticia/2016/06/dono-de-empresa-que-demitiu-223-funcionarios-e-encontrado-morto.html?noAudience=true> Último acesso em 03 de junho de 2017.

 

 

FREUD, S. O mal-estar na civilização, 1929. Disponível em: <http://www.freudonline.com.br/livros/volume-21/vol-xxi-2-o-mal-estar-na-civilizacao-1930-1929/> Último acesso em 03 de junho de 2017

 

 

TEIXEIXA, P; MELLO, K. Suspeito de matar família enfrentava crise profissional, 2016. Disponível em: <http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2016/08/suspeito-de-matar-familia-enfrentava-crise-profissional-confirmam-parentes.html> Último acesso em 03 de junho de 2017.