AUTORAS: LARISSA PIRES RIBEIRO e TÂNIA DE MELLO CRUZ PINTO

O texto a seguir foi apresentado, em 2017, à profª. Letícia Barreto docente da disciplina de Psicanálise na Faculdade de Administração, Ciências, Educação e Letras.

 

  1. INTRODUÇÃO

 

O mal-estar na civilização foi escrito em 1929 pelo neurologista, pai da psicanálise, Sigmund Freud. O artigo trata das questões que dizem respeito à produção do mal-estar pela civilização, que exige que os indivíduos façam sacrifícios em troca de proteção contra a natureza. Desde a publicação do texto, houveram muitos avanços tecnológicos que deram ao homem cada vez mais o poder de controlá-la, assim como houve um aumento considerável na liberdade sexual. Quais seriam, então, as causas do mal-estar na atualidade, de acordo com o que foi postulado por Freud? Não pretendemos, neste artigo, analisar o texto em questão, muito menos resumi-lo, apenas o utilizaremos como base de nossas hipóteses acerca do sofrimento e sintomas na cultura provenientes do discurso meritocrático da ideologia neoliberal no capitalismo avançado do século XXI no Brasil, considerando as exigências da civilização, o sentimento de culpa e a batalha entre as pulsões de vida e de morte.

 

  1. O MAL-ESTAR NO CAPITALISMO AVANÇADO

 

Dada a relação dialética entre o universo psíquico e o universo social, faz-se necessário definir a ideologia fundamental do sistema no qual estamos inseridos, a ideologia (neo)liberal:

 

Como oposição ao feudalismo, a perspectiva liberal tem como um de seus elementos centrais a valorização do indivíduo: o individualismo. Cada indivíduo é um ser moral que possui direitos derivados de sua natureza humana. Somos indivíduos e somos iguais, fraternos e livres, com direito à propriedade, à segurança, à liberdade e à igualdade. (…) Por que surgiam essas ideias liberais? Porque o capitalismo precisava delas; precisava pensar o mundo em movimento, para explorar a natureza em busca de matérias-primas e para dessacralizá-la. O capitalismo precisava do indivíduo como ser produtivo e consumidor. (…) Diante das enormes desigualdades sociais no mundo moderno, o liberalismo produziu sua própria defesa, construindo a noção de diferenças individuais decorrentes do aproveitamento diferenciado que cada um faz das condições que a sociedade “igualitariamente” lhe oferece. (BOCK, 2001)

 

Gostaríamos de evidenciar, de início, a batalha entre Eros (pulsões de vida) e Tânatos (pulsões de morte), na qual, segundo Freud (1929), o propósito de Eros “é combinar indivíduos humanos isolados, depois famílias e, depois ainda, raças, povos e nações numa única grande unidade, a unidade da humanidade”, enquanto Tânatos tem o intuito de desunir os indivíduos. A questão que surge, em nosso artigo, é a de que – visando o avanço capitalista e sua ideologia fundamental, o neoliberalismo (que, como acabamos de ver, tem como característica essencial o individualismo) e, ainda, o fato de que este sistema é marcado pelo consumismo (no qual o sentimento de falta se atualiza e se faz presente, a todo o momento, através das propagandas de produtos que supostamente trazem a felicidade que os indivíduos procuram) – a batalha entre as pulsões de vida e as pulsões de morte tornou-se ainda mais intensa.

 

Não é surpresa que uma ideologia que contribui com a marginalização de pessoas, que dissemina na cultura a noção de que as desigualdades sociais são culpa das classes dominadas e, ao mesmo tempo, impõe aos indivíduos que, de alguma forma, comercializem ou consumam o que é bombardeado na mídia, gere, não somente, profundo mal-estar, como também é neste fato que encontramos as causas no aumento do crime e da violência. Analisemos a favela, na qual o primeiro produto comercializável que chega aos adolescentes, que enfrentam as mais diversas dificuldades de se inserir no mercado de trabalho, são as substâncias tóxicas, uma das três medidas paliativas de lidar com o sofrimento, pontuadas por Freud (1929). Entendemos que a droga, ainda neste sentido, não tem o intuito apenas de insensibilizar o indivíduo ao sofrimento, como também é o meio pelo qual o indivíduo marginalizado encontra para dar conta da imposição do comprar e/ou vender. É através da droga que ele se insere na dinâmica do sistema.

 

Acrescendo aos fatos supracitados o que Freud (1929) pontua a respeito das exigências da civilização – a beleza, a limpeza e a ordem – e do narcisismo das pequenas diferenças, a soma tem como um dos produtos a realidade do sistema penitenciário brasileiro. Antes de discorrermos sobre, vale explicar o “narcisismo das pequenas diferenças”:

 

(…) não é fácil aos homens abandonar a satisfação dessa inclinação para a agressão. Sem ela, eles não se sentem confortáveis. A vantagem que um grupo cultural, comparativamente pequeno, oferece, concedendo a esse instinto um escoadouro sob a forma de hostilidade contra intrusos, não é nada desprezível. É sempre possível unir um considerável número de pessoas no amor, enquanto sobrarem outras pessoas para receberem as manifestações de sua agressividade. (…) Dei a esse fenômeno o nome de “narcisismo das pequenas diferenças”. (FREUD, 1929)

 

Dados de 2015 do Conselho Nacional do Ministério Público mostram que as cadeias públicas brasileiras têm 70% de presos a mais que a capacidade de lotação, cujo perfil socioeconômico dos detentos é, segundo o Departamento Nacional Penitenciário (2014), em sua grande maioria, de jovens, negros e de baixa escolaridade.

 

Dentro do sistema capitalista, a agressividade é redirecionada para os indivíduos que constituem a parcela que, devido aos inúmeros problemas sociais, não dão conta da demanda e das exigências deste sistema. A agressividade contra os mais desfavorecidos é vista não apenas nos discursos midiáticos, nos diálogos mais cotidianos e na realidade do sistema penitenciário, como também na ausência de políticas públicas que reduzam as desigualdades. O abandono e a negligência do governo, neste cenário, também é a causa da ausência de ordem, beleza e limpeza nas favelas, e a solução que tem se dado ao problema é a adição de “vigilantes”, como as UPPs, o BOPE e o Exército, que são inseridos nas favelas para “dar conta” do “inconveniente”.

 

Ainda a respeito dos grupos em desvantagens sociais, das exigências da civilização e do narcisismo das pequenas diferenças, gostaríamos de acrescentar um caso recente: a higienista e violenta ação na cracolândia no dia 21 de maio, que tratou o uso de álcool e drogas – um problema de saúde pública – como uma questão de polícia, que, como pontuou o Conselho Federal de Psicologia (2017),

 

desmontou, arbitrariamente, uma política pública destinada a usuárias (os) de drogas, fundamentada nos princípios da atenção integral à saúde, do cuidado em liberdade, da redução de danos e voltada à ampliação da autonomia do sujeito, por meio da redução gradual do uso de substâncias e da promoção do acesso à assistência social, ao atendimento em saúde, e a oportunidades de emprego e moradia. (…) A “São Paulo Cidade Linda” do prefeito João Dória é a cidade sem políticas públicas que atendam de maneira eficiente as demandas da população em situação de rua, entre elas, usuárias (os) de drogas. É a cidade na qual não há espaços para dialogar com as diferenças que São Paulo apresenta e que merecem não tratores, mas sim estratégias de cuidado que reconheçam todas as questões históricas e sociais que antecedem e resultam na vulnerabilidade de parcelas da população.

 

 

Para verificarmos o mal-estar na sociedade capitalista, não é necessário focar apenas nas periferias ou nos indivíduos em situação de rua, o desespero se faz presente também nas classes mais altas. No ano passado, um homem assassinou sua família e, logo em seguida, suicidou-se, deixando uma carta onde justificava o ato pelo desespero que se encontrava devido a uma crise econômica. No mesmo ano, o dono da empresa Luizzi, suicidou-se uma semana depois de demitir 223 funcionários devido à queda nas vendas. Não queremos reduzir o suicídio, uma questão de saúde pública, a estes casos, pretendemos, apenas, apontar para um dos estressores. Estes não são os únicos fatos que apontam a relação entre as dificuldades financeiras e o suicídio. Uma pesquisa financiada pela Universidade de Zurique, na Suíça, revelou que o desemprego é responsável por um a cada cinco suicídios no mundo, representando 20% do total de 233 mil mortes contabilizadas pela Organização Mundial de Saúde.

 

 

  1. CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Assim como Freud coloca acerca de sua época, também não acreditamos que, no século XXI, a agressividade tenha como causa a propriedade privada, mas também consideramos imprescindível e inevitável falar, além do que é inerente à natureza humana, dos estigmas e mazelas que surgiram com o avanço do capitalismo, ou seja, do mal-estar na cultura oriundo deste sistema.

 

 

 

  1. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

 

BOCK, A. M. B. A PSICOLOGIA SÓCIO-HISTÓRICA: uma perspectiva crítica em psicologia, 2001. Disponível em: <https://blogpsicologiablog.files.wordpress.com/2011/08/a-psicologia-socio-historica-uma-perspectiva-crc3adtica-em-psicologia-bock-2001.pdf> Último acesso em 03 de junho de 2017.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Prefeitura de SP afronta direitos humanos e luta antimanicomial, 2017. Disponível em:  <http://site.cfp.org.br/prefeitura-de-sao-paulo-afronta-direitos-humanos-e-luta-antimanicomial/> Último acesso em 03 de junho de 2016.

 

CONSELHO NACIONAL DO MINISTÉRIO PÚBLICO. CNMP lança relatório com dados sobre o sistema prisional brasileiro, 2016. <http://www.cnmp.mp.br/portal/todas-as-noticias/9946-cnmp-lanca-relatorio-com-dados-sobre-o-sistema-prisional-brasileiro> Último acesso em 03 de junho de 2017.

 

DANIELE, A. Desemprego causa 1 em cada 5 suicídios no mundo. Exame, 2015. Disponível em: <http://exame.abril.com.br/carreira/desemprego-causa-1-em-cada-5-suicidios-no-mundo-diz-estudo/> Último acesso em 03 de junho de 2017.

 

 

DEPARTAMENTO PENITENCIÁRIO NACIONAL. Levantamento Nacional de informações penitenciárias, 2014. Disponível em: <http://www.justica.gov.br/seus-direitos/politica-penal/infopen_dez14.pdf/@@download/file> Último acesso em 03 de junho de 2017.

 

G1. Dono de empresa que demitiu 223 funcionários é encontrado morto, 2016. Disponível em: <http://g1.globo.com/sp/sao-carlos-regiao/noticia/2016/06/dono-de-empresa-que-demitiu-223-funcionarios-e-encontrado-morto.html?noAudience=true> Último acesso em 03 de junho de 2017.

 

 

FREUD, S. O mal-estar na civilização, 1929. Disponível em: <http://www.freudonline.com.br/livros/volume-21/vol-xxi-2-o-mal-estar-na-civilizacao-1930-1929/> Último acesso em 03 de junho de 2017

 

 

TEIXEIXA, P; MELLO, K. Suspeito de matar família enfrentava crise profissional, 2016. Disponível em: <http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2016/08/suspeito-de-matar-familia-enfrentava-crise-profissional-confirmam-parentes.html> Último acesso em 03 de junho de 2017.

 

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