Rio de Janeiro, quinta-feira, 14 de julho de 2016:

“Enquanto a Olimpíada não começa, o Rio vai convivendo com o terror cotidiano. Na quinta-feira à noite, perto de uma estação de metrô no bairro do Estácio, esse terror se materializou de uma forma cruel pra família da dona de casa Cristiane Andrade. Ela foi assaltada. E como não tinha dinheiro pra entregar, o ladrão decidiu esfaqueá-la duas vezes no pescoço. E fugiu. A filha dela se desesperou. Saiu correndo, gritando, pedindo socorro. Um taxista ajudou. Levou Cristiane pro hospital. Médicos tentaram uma cirurgia, mas ela morreu. Tinha 46 anos de idade. E a filha que testemunhou tudo isso tem 7 anos. O bairro do Estácio, onde se deu essa tragédia, não vai ter nenhum evento olímpico.”¹

O fragmento acima descreve uma verdadeira cena de horror, os vídeos divulgados nas redes sociais escancaram a brutalidade, o terror, o desespero, as omissões. Uma criança, indefesa, sozinha, cruelmente obrigada a testemunhar o derramamento de sangue de sua mãe, sua morte.

A violência urbana nas cidades brasileiras é um evento constante, a marca recorde de 59.627 mil homicídios em 2014, uma alta de 21,9% em comparação aos 48.909 óbitos registrados em 2003 como mostra o Atlas da Violência 2016, estudo desenvolvido pelo Instituto de Pesquisa Econômica aplicada (IPEA) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FPSP), demostra um dos aspectos da dimensão desse problema.

As causas para tamanha insegurança são as mais diversas, os altos índices de criminalidade se dão no contexto de marginalização das populações periféricas e do total desprezo por parte dos governos em relação as políticas públicas estatais de segurança, inclusão, educação, saúde e moradia.

“Embora a violência urbana seja um fenômeno de dispersa definição, sua representação gira em torno da ameaça a duas condições básicas do sentimento de segurança existencial: a integridade física e a garantia patrimonial.”²

A questão central evidenciada na forma como se dão as violências urbanas no país deixa claro dois níveis de deficiência das ações do Estado. O primeiro ocorre no contexto das ações repreensivas e de combate, as políticas têm fracassado sistematicamente nesse aspecto, não atingindo os pontos cruciais de enfrentamento e aplicação das medidas de ressocialização dos criminosos.

Em uma segunda vertente, não tem se mostrado eficaz a prevenção aos focos geradores de violência, ao contrário disso a omissão e ineficiência das políticas de Estado tem contribuído, no caso brasileiro, para a geração de mais violência.

“A análise da marginalidade como fenômeno social considera a complexidade de fatores que atribuem ao comportamento real do marginal um papel social que lhe foi atribuído no drama da vida urbana. Os grupos de homens que atacam, roubam e matam caracterizam um tipo de marginalidade que reflete uma forma de resposta às contradições da sociedade urbana.”³

É visto, portanto, que há uma complexidade de fatores a ser observada na esfera da segurança pública das cidades brasileiras. O caso que ensejou a breve discussão iniciada por esse texto ocorreu em uma das mais importantes cidades do país, no contexto de realização de um dos maiores eventos desportivos mundiais, as Olimpíadas, enquanto a cidade se “enfeita” para a recepção dos jogos e de milhares de turistas, suas vísceras permanecem abertas adoecendo a sua população.

A menina foi forte

corajosa

“mãe, não me deixe”

Ela não teve escolha.

Referências:
¹REDE GLOBO (2016), "Jornal Nacional". Mulher morre a facadas em assalto na Zona Norte do Rio, 15 de Julho.
²ROSA, Edinete Maria et al. Violência urbana, insegurança e medo: da necessidade de estratégias coletivas. Psicol. cienc. prof., Brasília ,  v. 32, n. 4, p. 826-839, 2012 . Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932012000400005&lng=pt&nrm=iso>. acessos em  16  jul.  2016. 
³GULLO, Álvaro de Aquino e Silva. Violência urbana: um problema social. Tempo soc., São Paulo, v. 10, n. 1, p. 105-119, maio  1998 .   Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-20701998000100007&lng=pt&nrm=iso>. acessos em  16  jul.  2016.
Nota do autor: Não obstante a violência sofrida, houve uma demora significativa no atendimento e socorro à vítima. Um dos vídeos divulgados quando de sua chegada ao hospital mostram o desespero da criança – filha da vítima -  e a clara omissão do socorro imediato por falta de maqueiro no hospital. O taxista que conduziu a conduziu do local do ocorrido até o hospital testemunhou a omissão, segundo ele: "Ela (Cristiana) perdeu muito sangue, a gente demorou para chegar ao hospital. Quando chegamos, ainda demorou para ela sair de dentro do carro, porque só tinha um maqueiro, foi um absurdo.”
Créditos da Imagem: www.diarioliberdade.org 600 × 400

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