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A má fundamentada jurisprudência do STF acerca dos requisitos para a devida fundamentação das decisões judiciais

Redação Direito Diário

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Atualizado pela última vez em

 por Ingrid Carvalho

O parágrafo primeiro do artigo 489, §1º, inciso IV do Novo Código de Processo Civil exemplifica em seu rol o que não deve ser considerada uma decisão fundamentada, incluindo dentre eles o inciso IV, o qual prescreve que o julgador deverá necessariamente enfrentar todos os argumentos deduzidos no processo capazes de, em tese, infirmar a conclusão por ele adotada.

Observa-se a transcrição abaixo do parágrafo no novo CPC, ressaltando que as partes grifadas correspondem àquelas que não encontram equivalência no artigo 458 que trata da mesma temática no moribundo Código de Processo Civil de 19731 :

Art. 489.  São elementos essenciais da sentença:

I – o relatório, que conterá os nomes das partes, a identificação do caso, com a suma do pedido e da contestação, e o registro das principais ocorrências havidas no andamento do processo;

II – os fundamentos, em que o juiz analisará as questões de fato e de direito;

III – o dispositivo, em que o juiz resolverá as questões principais que as partes lhe submeterem.

§ 1o Não se considera fundamentada qualquer decisão judicial, seja ela interlocutória, sentença ou acórdão, que:

I – se limitar à indicação, à reprodução ou à paráfrase de ato normativo, sem explicar sua relação com a causa ou a questão decidida;

II – empregar conceitos jurídicos indeterminados, sem explicar o motivo concreto de sua incidência no caso;

III – invocar motivos que se prestariam a justificar qualquer outra decisão;

IV – não enfrentar todos os argumentos deduzidos no processo capazes de, em tese, infirmar a conclusão adotada pelo julgador;

V – se limitar a invocar precedente ou enunciado de súmula, sem identificar seus fundamentos determinantes nem demonstrar que o caso sob julgamento se ajusta àqueles fundamentos;

VI – deixar de seguir enunciado de súmula, jurisprudência ou precedente invocado pela parte, sem demonstrar a existência de distinção no caso em julgamento ou a superação do entendimento. (…) (grifo no original)2

Tal dispositivo tem sido aclamado como uma nova solução imprescindível ao sistema jurídico que hoje é regido fortemente pela jurisprudência pacífica do STF que dispõe em sentido contrário. Ocorre que, em verdade, ao se analisar a íntegra dos acórdãos que compõe a jurisprudência do Tribunal Superior acerca desta temática, observa-se que a inovação legislativa trata-se, em verdade, de uma tentativa do Novo Código de Processo Civil de conferir efetividade a um mandamento constitucional cuja força tem sido mitigada, sem apresentação de justificativas válidas, pelo próprio Guardião da Constituição Federal.

A Carta Constitucional de 1988 prevê a necessidade de motivação de todas as decisões judiciais como forma de assegurar o controle direto à prestação judicial justa ao jurisdicionado. Senão, vejamos:

Art. 93. Lei complementar, de iniciativa do Supremo Tribunal Federal,

disporá sobre o Estatuto da Magistratura, observados os seguintes princípios:

(…)

IX – todos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão públicos, e fundamentadas todas as decisões, sob pena de nulidade, podendo a lei limitar a presença, em determinados atos, às próprias partes e a seus advogados, ou somente a estes, em casos nos quais a preservação do direito à intimidade do interessado no sigilo não prejudique o interesse público à informação;

A doutrina majoritária sempre apontou na direção da necessidade de se responder a todas as indagações da parte interessada que pudessem, em abstrato, influenciar no entendimento do julgador, através de uma motivação controlável, racional, integra e coerente.

Entretanto, o órgão responsável por interpretar a norma prevista no art. 93,IX da CF/88 não seguiu as próprias regras nele estabelecidas, proferindo decisões mau-fundamentadas que geraram uma interpretação restritiva de que o julgador não precisaria analisar um a um todos os argumentos levantados pelas partes para que seja considerada fundamentada a sua decisão, podendo proferi-la sucintamente. 

O Supremo Tribunal Federal estabeleceu, por Repercussão Geral3, que cumpriria as exigências constitucionais de fundamentação a apresentação, no acórdão ou na sentença, das razões do convencimento do julgador, ainda que estas sejam sucintas; ainda que não se examine pormenorizadamente cada uma das alegações ou provas; ainda que sejam incorretos os fundamentos apresentados; e, ainda que apenas se faça referência a outros atos do processo, aderindo-se integralmente aos fundamentos ali apresentados -fundamentação ad relationem – (apenas esta última não abrangida pelo efeito da repercussão geral).

Ocorre que, pelo menos no tocante à desobrigação do julgador de analisar todos os argumentos apresentados pela parte, as decisões da Suprema Corte são deficientes em suas fundamentações e, por isso, inválidas, não podendo jamais ser utilizadas como precedente.

Observe-se a ementa do acórdão do AI 79129 Q-O, RG, Rel. Min. Gilmar Mendes, Dje 12.02.2010 que reafirmou a jurisprudência do STF quanto à desnecessidade de se examinar pormenorizadamente todo processo, bem como reconheceu a repercussão geral da questão:

Questão de ordem. Agravo de Instrumento. Conversão em recurso extraordinário (CPC, art. 544, §§ 3° e 4°). 2. Alegação de ofensa aos incisos XXXV e LX do art. 5º e ao inciso IX do art. 93 da Constituição Federal. Inocorrência. 3. O art. 93, IX, da Constituição Federal exige que o acórdão ou decisão sejam fundamentados, ainda que sucintamente, sem determinar, contudo, o exame pormenorizado de cada uma das alegações ou provas, nem que sejam corretos os fundamentos da decisão. 4. Questão de ordem acolhida para reconhecer a repercussão geral, reafirmar a jurisprudência do Tribunal, negar provimento ao recurso e autorizar a adoção dos procedimentos relacionados à repercussão geral.4

No Voto do Ministro Gilmar Mendes, relator do processo, afirma-se que deve ser reconhecida repercussão geral à temática, uma vez que tal entendimento já tinha sido decidido reiteradamente pelo Tribunal do Pleno, dentre os quais enumera as decisões MS 26.163, Rel. Min. Cármen Lúcia, Dje 5.9.2008 e o RE 418.416, Rel. Min. Sepulveda Pertence, DJ 19.12.2006, citando a ementa deste último julgado na parte que em que esta repete a conclusão acima exposta ao enumerar outras duas decisões que teriam decidido de forma semelhante, o RE 140.370, 1ª Turma, 20.4.93, Pertence, DJ 21.5.93 e o AI 242.237 – AgR, 1ª T., 27.6.00, Pertence, DJ 22.9.00.

O voto do relator continua enumerando outras 10 decisões, entre acórdãos de turmas e decisões monocráticas, sem, entretanto, justificar a escolha daquelas decisões ou apresentar a similitude das motivações e dos fatos que deram origem àquele julgamento.

Ressalte-se que, no julgamento do acórdão que reconheceu a repercussão geral, por 09 votos a 01, o único voto vencido foi proferido pelo ministro Marco Aurélio que continha o entendimento razoável pelo qual defendia que “o juiz é um perito na arte de proceder e na de julgar e que não existe prestação jurisdicional aperfeiçoada se não se examinarem, até para declarar a improcedência, todos os pontos enfocados pela parte”.

Desse modo, observa-se que apenas o fato de não ter sido justificada a escolha dos julgados, restringindo-se à listagem e à reprodução de uma única ementa, sem sequer serem identificados os motivos determinantes destes precedentes, já tornaria o acórdão que seguiu, por maioria, o voto do relator, carente de fundamentação5.

A situação, entretanto, é ainda mais absurda. Ocorre que nenhuma das 14 decisões enumeradas no voto do relator são, por si só, instrumentos hábeis a compor exemplos de julgados do STF acerca da questão que se desejava reconhecer a repercussão geral.

Dez dos julgados citados restringiram-se a citar emendas de julgados anteriores como se fossem leis, aplicando-os através de silogismos, sem sequer explicitar os fundamentos utilizados nos precedentes aleatoriamente adotados67; outro acórdão utilizado como precedente sequer tratou diretamente sobre a temática, decidindo, na verdade, o contrário, quando admite que o acórdão seja considerado fundamentado quando, apesar de sucinto, enfrente todos os argumentos da parte8.

Dos 03 precedentes ainda restantes, um trata-se de decisão monocrática que não enfrenta a questão discutida senão de maneira reflexa, e, mesmo assim não logra êxito em apresentar um só motivo que leve à conclusão proferida pela ministra de que o acórdão atacado realmente havia demonstrado de modo satisfatório as razões de seu convencimento.9

Quanto aos outros 02 julgados restantes listados para fundamentar o acórdão ora analisado, o primeiro, RE 140.370 da 1ª Turma, Rel. Min. Sepulveda Pertence, Dje de 21.5.1993, decidiu que “o que a Constituição exige, no preceito invocado (93, IX) é que a decisão seja fundamentada, não que a fundamentação seja correta: declinadas as razões do decisium, está satisfeita a exigência constitucional”.10

No curso do seu voto em sede do Recurso Extraordinário, o ministro relator deixa claro, sem maiores detalhamentos, que, para ele, a decisão com a motivação viciada é aquela na qual não há coerência lógica entre a motivação e o dispositivo, de modo que, se o magistrado, à luz da prova ou da interpretação que emprestou às normas, assentou premissas que induziram à procedência do pedido, o mandamento constitucional encontra-se atendido.

O segundo julgado enumerado como fundamento para o acórdão que reconhece a repercussão geral foi o AI-AgR 242.237, Rel. Min. Sepulveda Pertence, 1ª Turma, Dj de 22.09.2000 que manteve decisão proferida monocraticamente no Agravo de Instrumento de igual número, no qual, por sua vez, seguiu o entendimento do Ministro apresentado sete anos antes, mas desta vez restringiu ainda mais ao tornar explícito que artigo constitucional 93, IX, exige apenas que a decisão esteja motivada, o que pode ser feito mediante a apreciação livre do julgador das alegações e as provas que lhe são submetidas, sem a necessidade de examiná-las pormenorizadamente uma a uma.

Eis a decisão na íntegra da decisão do agravo de instrumento no qual, pela simples leitura, pode-se constatar que não é apresentado um só fundamento racional que aponte para a conclusão acima fixada.

DESPACHO: RE, a, contra acórdão assim ementado (f. 22): “EMBARGOS A EXECUÇÃO FISCAL. CERCEAMENTO DE DEFESA. NULIDADE DO AUTO DE INFRAÇÃO. ISSQN. RECOLHIMENTO. LOCAL DO ESTABELECIMENTO PRESTADOR. Não constitui cerceamento de defesa o julgamento antecipado da lide se o conjunto probatório dos autos é suficiente a ensejar o julgamento. O auto de infração lavrado em observância às regras legais, propiciando ampla defesa ao autuado, na esfera administrativa e judicial, não padece de qualquer nulidade. O ISS é devido no local da prestação do serviço, ou seja, onde se localiza o estabelecimento prestador do serviço (art. 12, “a”, do Dec. Lei nº 406/68), ainda que a matriz da empresa se situe em outro município. Apelo conhecido e improvido.” Sustenta a agravante que o acórdão recorrido, ao concluir que os serviços foram prestados no Município de Goiânia – e legitimar, por via de conseqüência, a cobrança do tributo -, desconsiderou diversos documentos, ofendendo, assim os arts. 5º, XXXV e LV, e 93, IX, da Constituição. O recurso é inviável. Ao contrário do que se alega, o art. 93, IX, CF, não exige o exame pormenorizado de cada uma das alegações ou provas apresentadas pelas partes, nem que sejam corretos os fundamentos da decisão; exige, apenas, que a decisão esteja motivada, e o acórdão recorrido não descumpre esse requisito. Não procede, por outro lado, a alegação de negativa de jurisdição, que foi prestada, ainda que em sentido contrário à pretensão da agravante. Por fim, o art. 5º, LV, da Constituição, não impede, obviamente, que o julgador aprecie com total liberdade e valorize como bem entender as alegações e as provas que lhe são submetidas. Nego provimento ao agravo. Brasília, 29 de fevereiro de 2000.11

É coerente que aquele que entenda cumprida a exigência de motivação nos termos expostos não tenha apresentado uma fundamentação devida a sua própria decisão, utilizando-se de livre interpretação limitada apenas por sua própria consciência, proferindo conclusão que mais se assemelha a um comando legislativo ao prescrever, sem explicar, o que a Constituição Federal exigiria do magistrado.

Apesar da coerência irônica, o efeito dessa decisão má fundamentada permanece repercutindo através do tempo. Repercutiu no passado, quando o advogado do agravante tentou demonstrar a falha mediante a interposição de agravo regimental à Turma, o qual, por sua vez, foi negado por unanimidade ao ser acolhido na íntegra o sucinto voto do relator que permaneceu com sua inegável coerência ao restringir-se a fundamentar a totalidade de seu voto da seguinte forma: “nada tenho a acrescentar ou rever à decisão agravada. Nego provimento ao agravo regimental: é o meu voto”. Ressoa ainda hoje, quando a ementa do Agravo Regimental no Agravo de Instrumento é utilizada erroneamente como precedente capaz de compor a jurisprudência da Suprema Corte acerca da matéria, como foi feito no acórdão, AI 791.292 QO-RG/PE, que reconheceu a repercussão geral ao tema.

O acórdão que fundamenta como leading case o tema de repercussão geral 339 do STF, portanto, não têm o condão de reafirmar a jurisprudência da Corte a qual o art. 93, IX, da Constituição Federal exige que o acórdão ou decisão sejam fundamentados ainda que sucintamente, sem estabelecer, todavia, o exame pormenorizado de cada uma das alegações ou provas, porque 1) o próprio acórdão não encontra-se devidamente fundamentado, mas apenas enumera supostos precedentes, 2) nenhum dos 14 precedentes enumerados justificam as conclusões apresentadas e 3) é atribuída interpretação restritiva, sem qualquer fundamentação, a uma garantia constitucional, cuja regra deveria ser a sua interpretação de modo a possibilitar a sua máxima eficácia possível.

Apesar de todos os argumentos expostos, a possibilidade de os Tribunais rejeitarem recursos que utilizem fundamentação contrária ao que se entendeu por considerar jurisprudência pacificada em sede de Repercussão Geral na Suprema Corte tem feito com que o art. 93, IX da Constituição Federal tenha tido sua força mitigada em todos os âmbitos do Poder Judiciário.

Segundo a ordem constitucional vigente, entretanto, dentre as funções do magistrado encontra-se a de explicar como atingiu determinada conclusão. Para tanto, deve demonstrar às partes a excelência das razões umas das outras, e, para isso, não pode se omitir em enfrentar todos os argumentos que teriam o condão, de, em tese, modificar a decisão. Tal conduta evita que o magistrado escolha, dentre todos os argumentos apresentados, apenas aqueles que mais o agradam subjetivamente, ignorando todos os outros, para, posteriormente, proferir sua decisão.

Nesse sentido, as alterações legislativas trazidas no novo CPC são salutares, pois exemplificam didaticamente aquilo que não poderá mais ser considerada uma decisão fundamentada.

Entretanto, para que a alteração legislativa produza efeitos práticos, é necessário que os operadores do direito aprendam a realizar construções lógicas, objetivas e bem fundamentadas, mediante a utilização do raciocínio e da argumentação jurídica que pressuponham o contexto do constitucionalismo brasileiro contemporâneo.

Referências

1 Art. 458 do CPC/73. São requisitos essenciais da sentença: I - o relatório, que conterá os nomes das partes, a suma do pedido e da resposta do réu, bem como o registro das principais ocorrências havidas no andamento do processo; II - os fundamentos, em que o juiz analisará as questões de fato e de direito; III - o dispositivo, em que o juiz resolverá as questões, que as partes Ihe submeterem.

2 DIDIER JR., Fredie. Novo Código de Processo Civil: comparativo com o código de 1973/ Fredie

3 Tema 339 da Repercussão Geral do Supremo Tribunal Federal.

4 AI 791292 QO-RG, Relator(a): Min. GILMAR MENDES, julgado em 23/06/2010, REPERCUSSÃO GERAL - MÉRITO DJe-149 DIVULG 12-08-2010 PUBLIC 13-08-2010.

5 No julgamento do acórdão citado, AI 791292 QO-RG, seguiram o voto do relator – Min. Gilmar Mendes – os Minitros Cezar Peluso, Celso de Mello, Ellen Gracie, Ayres Brito, Ricardo Lewandowski, Carmem Lúcia e Dias Tofolli, e foi voto vencido o Ministro Marco Aurélio, estando ausentes os Ministros Joaquim Barbosa e Eros Grau, resultando em uma votação por ampla maioria no total de 9 votos a 1.

6 Acerca dos variados motivos pelos quais se encontram carente de fundamentação decisão que apenas toma ementa por precedente e aplica-a por meio de um silogismo, por escapar do corte metodológico proposto na neste artigo, recomenda-se a leitura esclarecedora do ponto 2.5.1 do livro Precedentes Judiciais no Constitucionalismo Brasileiro Contemporâneo, de Lopes Filho (2014, p. 98).

7 Conforme se observa na leitura da íntegra dos acórdãos proferidos pelo tribunal do pleno: RE 418.416, Rel. Min. Sepulveda Pertence DJ 19.12.2006; MS 26.163, Rel. Min. Carmém Lúcia, Dje 5.9.2008; às decisões da Turma: AI-AgR 764.981, 1ª Turma, Rel. Min. Ayres Brito, DJe divulgado em 6.5.2010, 637.301,Rel. Min. Carmem Lúcia, 1ª Turma, Dje divulgado em 28.10.2008; AI-AgR 529.105, 2ª Turma, Rel. Min. Joaquim Barbosa, Dje divulgado em 6.5.2010; AI-AgR 594.628, 2ª Turma, Rel. Min. Gilmar Mendes, Dje divulgado em 27.3.2008 e RE-AgR 327.143, Rel. Min. Carlos Velloso, 2ª Turma, DJ 23.08.2002 e ainda às decisões monocráticas: AI 697.581, Rel. Min. Ayres Brito, DJe divulgado em 21.5.2010; o AI 764.718, Rel. Min. Cezar Peluso, DJe divulgado em 27.04.2010 e o AI 679.321, Rel. Min. Dias Tofolli, DJe divulgado em 14.4.2010

8 Vide decisão monocrática 601.207, Rel. Min. Joaquim Barbosa, Dje divulgado em 21.5.2010.

9 AI 580.429, Rel. Min Ellen Gracie, DJe de 9.5.2006

10 RE 140.370 da 1ª Turma, Rel. Min. Sepulveda Pertence, Dje de 21.5.1993

11AI 242237, Rel. Min. Sepulveda Pertence, julgado em 29/02/2000, publicado em DJ 24/03/2000 PP-00078.

Didier Jr. e Ravi Peixoto-Salvador: Ed. JusPodivm, 2015, p. 247.

ADVOGADOS e juízes disputam veto de Dilma em novo CPC. Conjur, 11 de março de 2015 disponível no site http://www.conjur.com.br/2015-mar-11/advogados-juizes-disputam-vetos-dilma-cpc, acessado em 18/06/2015, às 15:25

DINAMARCO, Candido Rangel. Instituições de Direito Processual Civil. Malheiros: São Paulo, 2005.

DIDIER JR., Fredie. Curso de Direito Processual Civil: teoria da prova, direito probatório, ações probatórias, decisão, precedentes, coisa julgada e antecipação dos efeitos da tutela, 10 ed, Salvador: Juspodivm, 2015.

DIDIER JR., Fredie e PEIXOTO, Ravi. Novo Código de Processo Civil: comparativo com o código de 1973/ Fredie Didier Jr. e Ravi Peixoto-Salvador: Ed. JusPodivm, 2015.

LOPES FILHO, Juraci Mourão. Precedentes Judiciais no Constitucionalismo Brasileiro Contemporâneo, Editora Jus Podivm, Salvador, 2014.

JUÍZES pedem veto a artigo que traz regras para a fundamentação de decisões. Conjur, Fortaleza, 04 de março de 2015 disponível no site http://www.conjur.com.br/2015-mar-04/juizes-pedem-veto-artigo-cpc-exige-fundamentacao, acessado em 17 de junho de 2015, às 23:52. RODRIGUEZ, Victor Gabriel. Argumentação Jurídica: técnicas de persuasão e lógica informal, 5ªed, São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2011.

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Analogia no Direito: o que é e como aplicar?

Redação Direito Diário

Publicado

em

analogia no direito

A compreensão do Direito enquanto sistema de normas no qual qualquer conflito social encontrará resposta demanda um ordenamento jurídico dotado de unidade, coerência e completude.

Unido, pois o ordenamento será composto por um todo de normas hierarquizadas que lhe dão forma, sendo a superior o fundamento de validade da inferior. 

Coeso, pois não poderão subsistir antinomias no seu interior; devendo ser excluídas do sistema normas que a ele não sejam incompatíveis por critérios de temporalidade, especificidade ou hierarquia.

Completo, pois o juiz ao se deparar com um conflito posto à sua apreciação não poderá apelar ao non liquet; deverá encontrar no Direito uma resposta ao caso e julgá-lo, já que o sistema não possui [em tese] lacunas.

Sobre a História da Analogia no Direito

O instituto da analogia no Direito moderno surge como decorrência do terceiro dogma do ordenamento: a sua pretensão de completude. Já se podia extraí-la do art. 4º do Code Napoléon. O Direito sempre deverá ter uma resposta. Às vezes, mais clarividente; outras vezes, mais velada.

Diriam os exegéticos que a analogia nada mais é do que o descortinar da norma oculta já dada pelo legislador, mas que não se fazia evidente na lei. Bobbiovai além ao afirmar que, por meio do argumentum a simili, o sistema jurídico expande-se, abarcando situações não contidas previamente na lei.

Aproveite e veja esse artigo sobre as Contribuições da Escola da Exegese. Também pode averiguar sobre as origens e principais características da Escola da Exegese.

Em Organon, de Aristóteles, já se tinha referência ao raciocínio analógico: “A guerra dos focenses contra os tebanos é ruim; a guerra dos atenienses contra os tebanos é semelhante à guerra dos focenses contra os tebanos; a guerra dos atenienses contra os tebanos é ruim”.

A analogia no Direito também é milenar. O Digesto romano já a previa: “Não podendo qualquer artigo individual da lei ou dos decretos do Senado compreender o caso consultado, mas sendo clara a razão da decisão, deverá aquele que exerce a jurisdição dizer por similitude o direito” (Digesto Juliano – Dig. 1.3.12).2

Pois bem, antes de nos aprofundamos sobre a analogia no Direito, convém entender a analogia em suas raízes lógicas. Por excelência, a analogia é um instituto da lógica; o Direito apenas o tomou por empréstimo.

Do grego “αναλογία”, ou proporção, a analogia consiste em um juízo de identidade entre duas premissas assemelhadas, a partir das quais logicamente deverão emergir conclusões igualmente assemelhadas.

Alerte-se que a analogia não busca a verdade empírica, mas a justeza lógico-discursiva. Não pretende a verdade substancial, mas a perfeição formal. Como qualquer instituto da lógica, o seu compromisso é a coerência do discurso, é a compatibilidade premissa-conclusão.

Para deixar clara a problemática, vejamos um novo exercício lógico: Platão é mortal; cavalos são semelhantes a Platão; logo, cavalos são mortais. Perceba que no iter do raciocínio analógico surge uma anomalia silogística: “semelhante”. O que seria “semelhança”?

Neste pormenor repousa o problema do silogismo em sistemas complexos como o jurídico. Desvendando a “semelhança”, percebe-se que o que acontece na segunda proposição [cavalos são semelhantes a Platão], na verdade, é um salto indutivo [premissa menor para premissa maior] seguido por um salto dedutivo [premissa maior para premissa menor].

Explicando: o que há, na verdade, para que ocorra a analogia é a busca por um elemento comum entre ‘Platão’ e ‘cavalo’, ou seja, uma premissa maior [i. g., vida]. Para, enfim, com base nela, atingir-se a conclusão [cavalos são mortais]. Reconstruindo o exemplo: Platão é um ser vivo; Platão é mortal; logo, seres vivos são mortais. Com efeito, sendo os cavalos seres vivos; os cavalos são mortais.

Quando o interprete se depara com um caso concreto que não possui previsão exata no texto legislativo, busca guarida na analogia para salvar a pretensão de completude do ordenamento jurídico da tempestade do imprevisível. Ou seja, a analogia no Direito é tomada como a exceção.

A razão de a utilização da analogia no Direito ser apenas um recurso subsidiário decorre do fato de a analogia escapar do legislativamente tangível. No diapasão da supremacia do Legislativo, a analogia deve ser exceção, uma vez que é a válvula de escape encontrada pelo aplicador para integrar o sistema por meio de critérios alheios ao prévio exame dos “representantes do povo”.

Analogia no Direito Brasileiro

No direito brasileiro, a analogia está prevista como método de integração jurídico no art. 4º da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro: “Quando a lei for omissa, o juiz decidirá o caso de acordo com a analogia, os costumes e os princípios gerais de direito”.É a positivação da insuficiência do Estado legislativo: onde há “quando a lei for omissa”, leia-se “quando o legislador for omisso”.

O dispositivo soaria quase como um mal necessário para um positivista clássico ao reconhecer a rebelião dos fatos diante da escassez do Direito legislativo. Derrotado, o legislador concede ao interprete pela analogia poder para, em menor escala, criar o Direito e apaziguar os ânimos sociais que nada se acalmam com o silêncio do Parlamento.

Ao conceder poder criativo ao aplicador, surge o problema de definir como se dará tal analogia, uma vez que há infinitas variáveis interpretativas que poderão levar o processo analógico para uma direção ou para outra, pois o Direito não se resume ao simples silogismo. “O Direito não é uma ciência exata” é o que dizem os professores. Assim, o simples juízo de identidade torna-se um processo deveras complexo que saneia o problema da incompletude, mas expõe o problema da insegurança jurídica.

No Direito, diversas normas se entrelaçam no processo lógico-cognitivo de interpretação. A infinitude de variáveis torna o processo lógico-silogístico instável e imprevisível, uma vez que as premissas poderão variar conforme variam a significação dos enunciados e a aplicabilidade das normas.

Um exemplo bastante emblemático é analogia no Direito Penal. Como bem se sabe, este ramo do Direito é regido pela reserva legal4, o que inibe a utilização da analogia para a configuração de crime ou para a culminação de pena que não estejam previstas previamente em lei.

Perceba que o que afasta a possibilidade criação do crime-por-analogia não é a impossibilidade do raciocínio analógico em si, mas, sim, a interferência de uma norma constitucional, que afasta a possibilidade do crime-por-analogia da conclusão lógica. Este é apenas um exemplo, ainda relativamente simples, de como as inter-relações normativas dificultam o processo analógico preciso no Direito.

Inserida no contexto sócio-histórico, a analogia é, ao mesmo tempo, uma filha e uma denunciante da insuficiência do Estado-legislador. A complexibilização da sociedade pós-industrial deflagrou o processo de putrefação dos ideais legislativos de prever todos os incidentes sociais a priori e dotá-los de consequências plenamente previsíveis.

A empreitada fracassou por partir de duas falsas premissas: (i) a suficiência dos enunciados linguísticos na premunição dos fatos sociais; e (ii) a capacidade legiferante de acompanhar as transformações sociais. Dentre as muitas proles deste processo, a analogia é uma filha emblemática.

Ao mesmo tempo, a analogia já há tempos vinha denunciando, de forma discreta e eficaz, as limitações dos velhos paradigmas jurídicos sobressaltados pelo legalismo exegético e pelas ideias do Iluminismo.

Como profeta de uma realidade adiada pelas reações legalistas, a analogia é uma proclamação da ruína do Estado-legislador. O séc. XIX foi do Legislativo; e o séc. XX foi do Executivo. Seria o séc. XXI do Judiciário? À questão só com o tempo dará respostas, mas o certo é que a analogia, com a desculpa de fechar as lacunas do sistema, já de longe anunciava as mudanças que estariam por vir na Ciência Jurídica.

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Especificações

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Referências

1 BOBBIO, Norberto. Teoria do ordenamento jurídico. Tradução de Ari Marcelo Solon. São Paulo: Edipro, 2011, p. 147.

2 Non possunt omnes articuli singillatim aut legibus aut senatus consultis compreendi: sed cum in aliqua causa sententia earum manifesta est, is qui iurisdictioni praeest ad similia procedere atque ita ius dicere debet.

3 A analogia também se faz presente em outros diplomas legais: artigo 126 do Código de Processo Civil de 1973; artigo 140 do Código de Processo Civil de 2015; artigo 3º do Código de Processo Penal; artigo 8º da Consolidação das Leis do Trabalho; e artigo 108, inciso I, do Código Tributário Nacional.

4 Constituição Federal de 1988: art. 5º, inc. XXXIX: não há crime sem lei anterior que o defina, nem pena sem prévia cominação legal.

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Constitucional

O efeito backlash: a reação a decisões judiciais

Redação Direito Diário

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efeito backlash decisões judiciais

No direito, o efeito backlash, também conhecido como efeito rebote, se refere à reação negativa causada por decisões judiciais, principalmente as decisões que envolvem temas polêmicos e controversos na sociedade.

O termo backlash é definido pelo Dicionário de Cambrigde, de inglês britânico, como “um sentimento forte entre um grupo de pessoas em reação a uma mudança ou a um evento recente na sociedade ou na política”.

Quando a sociedade é confrontada com determinado assunto polêmico, ela tende a se dividir. Parte das pessoas acredita que aquele tema não deveria ser alvo de mudanças legislativas ou judiciais, enquanto outra parcela da população acredita que o tema precisa de revisão, de modo a se adequar a um novo modelo de sociedade, que seria mais justa e igualitária.

Assim, quando o Judiciário busca, por meio de decisões judiciais, modificar o status quo da sociedade, por vezes ocorre uma reação por partes de pessoas que não concordam com a decisão ou discordam da forma como a decisão foi tomada.

O que é o efeito backlash segundo doutrinadores

Em termos jurídicos, para os professores estadunidenses, Post e Siegel, backlash expressa o desejo de um povo livre de influenciar o conteúdo de sua Constituição, mas que também ameaça a independência da lei.

Já Greenhouse e Siegel, apontam que a contra-mobilização e a intensificação de conflitos (muitas vezes referido como backlash) é uma resposta normal ao crescente apoio público à mudança que pode ter uma relação com o judicial review.

Cass Sunstein define o referido efeito como a intensa e contínua desaprovação pública de uma decisão judicial, acompanhada de medidas agressivas para resistir a esta decisão, buscando retirar sua força jurídica.

Dessa forma, pode-se resumir o efeito backlash como uma forma de reação a uma decisão judicial, a qual, além de dispor de forte teor político, envolve temas considerados polêmicos, que não usufruem de uma opinião política consolidada entre a população.

Em decorrência desta divisão ideológica presente de forma marcante, a parte “desfavorecida” pelo decisum faz uso de outros meios para deslegitimar o estabelecido ou tentar contorná-lo. Em suma, backlash relaciona-se com alguma forma de mudança de uma norma imposta.

Observamos esse acontecimento acompanhado do fenômeno conhecido como ativismo judicial. Podemos estudar um pouco mais sobre ele aqui.

O efeito backlash para George Marmelstein

Com o escopo de melhor compreender o efeito backlash, é fundamental destacar um breve resumo feito por Marmelstein, o qual descreve, de forma sucinta, como ocorre o fenômeno.

Segundo George Marmelstein, a lógica do efeito backlash funciona da seguinte forma: há determinada matéria que divide a opinião pública, e cabe ao Poder Judiciário proferir uma decisão liberal, assumindo a posição de vanguarda na defesa dos direitos fundamentais.

Em consequência, como a consciência social ainda não está bem consolidada, a decisão judicial é bombardeada com discursos conservadores inflamados, cheios de falácias com forte apelo emocional. A crítica à decisão judicial acarreta uma mudança na opinião pública, capaz de influenciar as escolhas eleitorais de grande parcela da população.

Desse modo, os candidatos que aderem ao discurso conservador conquistam maior espaço político, conquistando votos. Vencendo as eleições e assumindo o controle do poder político, o grupo conservador consegue aprovar leis e outras medidas que correspondem à sua visão de mundo.

Assim, como o poder político também influencia a composição do Judiciário, abre-se um espaço para a mudança de entendimento dentro do poder judicial. Pode então haver um retrocesso jurídico, que pode prejudicar os grupos que seriam beneficiados com aquela decisão.

Assim, os opositores ao novo regime legal instaurado rejeitam publicamente alguns dos elementos centrais, fundamentando a sua rejeição em afirmações de legitimidade ou superioridade do quadro social-legal anterior, objetivando, consoante exposto acima, deslegitimar o decisum.

Portanto, a decisão judicial, a qual buscava proporcionar direitos às minorias, atinge, muitas vezes, o contrário do que objetivava, gerando, como efeito colateral, insatisfação por parte da população mais conservadora, o que propicia um ambiente possível de derrocar os direitos arduamente adquiridos, tendo como consequência mais forte o retrocesso.

Casos notáveis

Podemos destacar alguns casos práticos em que foi possível observar o efeito backlash no Direito, ou seja, casos jurídicos em que houve uma mudança significativa em determinada norma jurídica.

Nos Estados Unidos, este tipo de reação adversa ocorreu em leading cases como Roe v. Wade (legalização do aborto), Obergefell v. Hodges (casamento entre pessoas do mesmo sexo) e Brown v. Board Education (segregação racial em escolas públicas).

Em tais casos, a bancada mais conservadora tentou reverter as decisões, além de tê-las usado estrategicamente como forma de eleger mais candidatos Republicanos, pois se alegava que os Democratas apoiavam estas decisões “contramajoritárias”, as quais representavam uma ameaça à família tradicional e à religião.

Também no Brasil, podemos elencar a decisão do Plenário do Supremo Tribunal Federal (STF), de forma unânime, equiparou as relações entre pessoas do mesmo sexo às uniões estáveis entre homens e mulheres, reconhecendo, assim, a união homoafetiva como um núcleo familiar. A decisão foi tomada no julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 4277 e da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 132.

Também é possível observar o trabalhos das Cortes Internacionais na defesa de direitos fundamentais, como vemos aqui.

Quer se aprofundar no estudo jurídico? Confira aqui esses livros de George Marmelstein:

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Referências

BACKLASH. Dicionário online de Cambridge. Disponível em < http://dictionary.cambridge.org/pt/dicionario/ingles/backlash >. Acesso em 5 abr. 2017.

GREENHOUSE, Linda e SIEGEL, Reva. Before (and after) Roe v. Wade: New questions about backlash. Yale Law Journal, Yale, v. 120, n. 8, 2011. Disponível em: <http://www.yalelawjournal.org/feature/before-and-after-roe-v-wade-new-questions-aboutbacklash>. Acesso em: 15 jan. 2017. p. 2077.

KRIEGER, Linda Hamilton. Afterword: Socio-Legal Backlash. In: Berkeley Journal of Employment and Labor Law, v. 21, n. 1, 2000, p. 476-477.

MARMELSTEIN, George. Efeito Backlash da Jurisdição Constitucional: reações políticas ao ativismo judicial. Texto-base de palestra proferida durante o Terceiro Seminário Ítalo-Brasileiro, proferida em outubro de 2016, em Bolonha-Itália.

POST, Robert; SIEGEL, Reva. Roe Rage. Democratic Constitutionalism and Backlash. Harvard Civil Rights-Civil Liberties Law Review, 2007; Yale Law School, Public Law Working Paper, nº 131, p. 4.

STF. Mês da Mulher: há 12 anos, STF reconheceu uniões estáveis homoafetivas. Supremo Tribunal Federal. Disponível em: <https://portal.stf.jus.br/noticias/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=504856&ori=1>. Acesso em 18 mai 2024

SUNSTEIN, Cass R. Backlash’s Travels. Harvard Civil Rights-Civil Liberties Law Review, v. 42, março 2007, p. 436.

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Artigos

Contratos de uso temporário de imóveis

Redação Direito Diário

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Atualmente, as plataformas digitais oferecem serviços de toda a natureza, facilitando a vida cotidiana. Por meio de aplicativos, é possível escolher, em detalhes, onde você gostaria de se hospedar na sua próxima viagem. Afora os benefícios para os viajantes, o uso temporário do imóvel é outro modo de obtenção de renda para os proprietários de imóveis. Essa modalidade surgiu nos idos de 2008, nos Estados Unidos, prometendo rapidez e segurança para viajantes e proprietários de imóveis. E esse é um ponto muito positivo para os usuários desse tipo de alojamento.

Entretanto, a natureza da contratação e a intensa rotatividade de hóspedes, em curto espaço de tempo, gera discussões sobre a relação entre hóspedes e os condomínios residenciais.  O trânsito extraordinário de pessoas não residentes dentro dos condomínios tem sido objeto de reclamação dos moradores porque os hóspedes, muitas vezes, não conhecem e não se sentem obrigados a cumprir as regras condominiais quanto ao uso do imóvel e horário de silêncio, por exemplo.

Segundo recente decisão do Superior Tribunal de Justiça, a contratação de uso temporário de imóveis, via plataformas digitais, assemelha-se aos serviços de hotelaria, não aos de locação. Nesse sentido, a decisão do STJ foi no sentido de que o condomínio poderá convencionar, por meio de assembleia, a regulação ou a vedação dessa contratação temporária.

O tema está longe de se pacificado, pois, aparentemente, opõe a exploração econômica ao direito de propriedade e ao sentido constitucional de que a propriedade é protegida pelo ordenamento jurídico tão somente enquanto possuir uma função social. Nesses casos, me filio à segunda hipótese.

Mais informações: https://youtu.be/flsKs_3mS3M

Andrea Teichmann Vizzotto Advocacia

[email protected]

andreavizzotto.adv.br

@andreavizzotto.adv

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